terça-feira, 12 de junho de 2012

EXTRAÇÃO DA BORRACHA EM PORTEL


Artigo produzido pelo professor José Mendes Santana da Silva
Coordenador e Pesquisador do Centro de Ensino e Pesquisa de Portel
Museu Antonio Gonzaga da Rocha

A exploração da borracha na Amazônia

“Na segunda metade do século XIX, a exploração de uma árvore nativa da Amazônia, a seringueira, forneceu um dos produtos mais cobiçados pelos europeus na época: a borracha. Essa atividade econômica trouxe para a região muito dinheiro e também muita gente”. (Paiva, Renata – 2004).
“A borracha natural pode ser extraída de mais de dezenas de árvores, principalmente das zonas tropicais do planeta. Nenhuma, porém, equivale-se à seringueira, hevea brasiliensis, em qualidade e produtividade. A grande vantagem da seringueira é fornecer o látex boa parte do ano, sem que a árvore sofra. Mais de 90% da área de extração de seringueira se encontra em solo brasileiro, sendo o restante dividido entre Peru, Bolívia, e Colômbia”. (Meirelles Filho, João. – 2006).
A exploração da borracha trouxe muita riqueza para a Amazônia e, em especial, para Belém do Pará. A cidade, juntamente com Manaus (a atual capital do estado do Amazonas), sofreu uma série de transformações em seu espaço urbano. Foram construídos nessa época grandes palacetes, praças, ruas, e avenidas.
Com o enriquecimento de parte da população, a vida cultural na cidade de Belém se alterou: cafés, museus e teatros foram construídos nesse período. “A intenção era fazer de Belém uma cidade moderna e civilizada, a exemplo de grandes cidades brasileiras e européias, como o Rio de Janeiro, no Brasil, e Paris, na França”. (Paiva, Renata –2004). 

De onde vinha a riqueza?
“O látex, que é a seiva extraída da seringueira, já era conhecido dos portugueses desde o início da colonização. Com a seiva dessa planta, os indígenas fabricavam uma espécie de garrafa em formato de pêra, oca e com um canudo na ponta. Quando cheia de água, bastava apertar sua base para que o líquido espirasse para fora da garrafa. Os Portugueses batizaram esse objeto de seringa e o nome dado a planta acabou virando seringueira. Os botânicos a chamam de hevea brasiliensis, mas, para os indígenas, a seringueira sempre teve um nome: cão o’ chu, que na língua tupi significa árvore que chora”. (Paiva, Renata –2004).
A resina chamada caucho, quando fresca, pode ser moldada na forma desejada. É impermeável à chuva, mas o que a torna mais notável é a sua grande elasticidade.

Borracha: um produto valioso
A possibilidade de aproveitamento industrial da borracha ocorreu numa época em que o mundo todo passava por muitas mudanças. “Nesse período, surgiram várias das facilidades do mundo moderno, como o automóvel, o telefone e a luz elétrica. No fim do século XIX, bondes, bicicletas e os primeiros automóveis integravam a paisagem das grandes cidades da Europa e Estados Unidos”. (Paiva, Renata – 2004).
“A borracha tinha duas qualidades essenciais: era elástica e impermeável. Por isso poderia se tornar uma matéria-prima muito interessante para as fábricas européias. Mas o uso da borracha natural era limitado. Quando entrava em contato com o frio intenso, ficava muito seca e quebradiça. Quando exposta ao sol, ficava úmida e pegajosa demais. Para que a indústria pudesse usar a borracha em seus produtos era necessário resolver esses problemas”. (Paiva, Renata – 2004).
“Foi o inventor norte-americano Charles Goodyear que, em 1839, depois de muito pesquisar, encontrou acidentalmente um modo de melhorar a qualidade da borracha. Ele conseguiu isso por meio de um processo em que adicionava ao látex diferentes produtos químicos. Com isso, Goodyear conseguiu aumentar a resistência e a elasticidade da borracha, mesmo sobre temperaturas muito altas ou baixas. Esse processo químico recebeu o nome de vulcanização”. (Paiva, Renata – 2004).

                                      O sistema de extração da Borracha
“Para explorar a borracha o empresário baseia-se no sistema de aviamento. O proprietário da área onde há seringueiras, o aviador ou seringalista, forma um sistema comercial em que ele é o único autorizado a comprar borracha do seringueiro (o trabalhador rural que coleta a borracha). Ele também é o único a lhe vender mercadorias (facão, instrumentos para coletar borracha, pólvora, chumbo, sal, açúcar, mantimentos e material para a iluminação)”. (Meirelles Filho, João. – 2006).
“Para começar a trabalhar, o seringueiro é obrigado a contrair uma dívida com o seringalista no seu barracão (armazém do seringalista que vende mercadorias a prazo) e a pagar o próprio custeio de viagem até a colocação. O sociólogo Lúcio Flávio Pinto lembra que “os coronéis de barranco” se consideravam donos de determinado território, base para seu extrativismo vegetal (da castanha, da borracha, da balata), e ponto final. Não se media, não se demarcava e pouco se transacionava com o imóvel. A Amazônia era um mundo sem fim, valendo por seu uso e pouco como reserva de valor ou meio de troca”. (Meirelles Filho, João. – 2006).
“Em alguns casos, onde o seringueiro é um homem de menos posse, existe um intermediário, o regatão. Regatão é o nome do barco, e também de seu proprietário, muitas vezes de origem judaica ou árabe, responsável pelo transporte da borracha aos grandes centros e das mercadorias ao seringal. O seringalista, por sua vez, endivida-se com as grandes casas comerciais dos centros urbanos, Manaus e Belém, no Brasil, Iquitos, no Peru, e Letícias, na Colômbia, dos quais compra os bens de primeira necessidade e para os quais vende a borracha. Nessa cadeia, a casa comercial endivida-se com o importador, em geral inglês, que traz as mercadorias a essas cidades e delas leva a borracha por navio”. (Meirelles Filho, João. – 2006).
O elo mais fraco, naturalmente, é o seringueiro, isolado e solitário na mata, com poucas condições de mudar o rumo de sua história. Os preços praticados no barracão pelo seringalista são sempre aviltantes. A cada nova compra o seringueiro afunda-se mais e mais em dívidas, passando a viver num regime de total dependência e semi-escravidão. (Meirelles Filho, João. – 2006).

A exploração da Borracha em Portel
Através de entrevistas realizadas com moradores antigos, conseguimos algumas informações importantes para melhorar o entendimento do assunto e que com certeza servirão de base para futuras pesquisas científicas e trabalhos escolares.
Segundo seu Humberto Pereira Cardoso aviador da época “os principais lugares de extração da borracha localizavam-se nos rios Anapú, Pacajá, Acutipereira e seus respectivos afluentes, no município de Portel, recebia também borracha oriunda do rio Carnajuba e Furo Grande no município de Melgaço”. Argumentou que “outras pessoas também compravam borracha dos seringueiros como senhor Othon Fialho, Levindo Pureza, Joaquim Machado e um alemão conhecido como Court Hell”.
Tivemos também a honra e felicidade de ouvir os relatos do senhor José Anastácio Santana da Silva seringueiro da época, natural do estado do Ceará, hoje com 97 anos, que migrou para o estado do Pará no início do século XX na companhia de seu pai. “Disse que, na época de ajudante de seu pai e posteriormente como chefe de família, o trabalho sempre foi árduo, tudo começava antes do sol nascer; de madrugada eu partia da minha barraca pro seringal com minha poronga (lamparina atada a um suporte para ser colocada na cabeça que usava como combustível querosene ou óleo diesel) e seguia pela estrada cortando, isto é, riscado as seringueiras e coletando o leite para depois levar para o tapiri para defumar e transformar em borracha; no outro dia tudo se repetia nas imensas estradas solitárias, eu, minha poronga, meu terçado e deus”.
Outro seringueiro conhecido como Januário da Silva dos Santos nos relatou que é natural do Ceará e também migrou para região para trabalhar na extração do látex e atualmente mora na zona rural de Portel, no rio Irapurú
A borracha era encontrada também nas regiões dos furos do Marajó, obtida de diferentes espécies de árvores, sendo mais importante e encontradiça a, a seringueira.
A seringueira, cujo nome de provém das seringas de borracha fabricadas pelos indígenas já antes mesmo da entrada dos brancos nas terras amazônicas. Ela vive em estado nativo nas altas bacias dos rios Juruá, Purus e Madeira, e também na região dos furos, a ocidente do grande arquipélago marajoara. É vegetal de tronco robusto e folhagem escassa, próprio das regiões úmidas, onde pode alcançar mais de 20 metros de altura.
Paralelo a extração do látex da seringueira no município de Portel, ocorreu também à extração do látex da maçaranduba. As principais áreas de extração da maçaranduba estavam situadas em áreas de terra firme nos rios Anapú, Pacajá, Camarapi, Acutipereira e seus afluentes.
Hoje temos uma prova concreta da prática da extração da maçaranduba em Portel, que é uma peça encontrada pelo professor Joélcio Pantoja da Costa, no dia 15 de novembro de 2008, no Igarapé Cajú, afluente do rio Camarapi – comunidade Santana – também conhecido como “Zeca baixinho” e encontra-se em exposição no Centro de Ensino e Pesquisa de Portel, Museu Antonio Gonzaga da Rocha e parte deste artigo já está postado no blog do museu www.museumunicipaldeportel-pa.blogspot.com
Seu Januário finalizou seu relato afirmando que para se fabricar uma peça de maçaranduba de 105 Kg, eram necessárias 05 latas de leite. Para cada lata de 21 Lt era necessário acrescentar 01 Lt de amoníaco para sua conservação. Dessa forma, descobrimos que o látex da maçaranduba, também era vendido na forma líquida em tambores de 200 Lt, misturados ao amoníaco e tinha um preço melhor que a borracha, porém a procura era pouca e trabalho era muito desgastante e não compensava.
Assim, podemos concluir, afirmando que nossos antecedentes, portelenses, marajoaras, participaram deste período importante da história da humanidade e discutir um pouco mais sobre o período da borracha em Portel e ter a certeza que esta contribuição é apenas uma pequena parte desta grandiosa história.





                                                                                                   Portel, 25 de outubro de 2010




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