Artigo
produzido pelo professor José Mendes Santana da Silva
Coordenador
e Pesquisador do Centro de Ensino e Pesquisa de Portel
Museu
Antonio Gonzaga da Rocha
A exploração
da borracha na Amazônia
“Na
segunda metade do século XIX, a exploração de uma árvore nativa da Amazônia, a
seringueira, forneceu um dos produtos mais cobiçados pelos europeus na época: a
borracha. Essa atividade econômica trouxe para a região muito dinheiro e também
muita gente”. (Paiva,
Renata – 2004).
“A
borracha natural pode ser extraída de mais de dezenas de árvores,
principalmente das zonas tropicais do planeta. Nenhuma, porém, equivale-se à
seringueira, hevea brasiliensis, em
qualidade e produtividade. A grande vantagem da seringueira é fornecer o látex
boa parte do ano, sem que a árvore sofra. Mais de 90% da área de extração de
seringueira se encontra em solo brasileiro, sendo o restante dividido entre
Peru, Bolívia, e Colômbia”. (Meirelles
Filho, João. – 2006).
A
exploração da borracha trouxe muita riqueza para a Amazônia e, em especial,
para Belém do Pará. A cidade, juntamente com Manaus (a atual capital do estado
do Amazonas), sofreu uma série de transformações em seu espaço urbano. Foram
construídos nessa época grandes palacetes, praças, ruas, e avenidas.
Com
o enriquecimento de parte da população, a vida cultural na cidade de Belém se
alterou: cafés, museus e teatros foram construídos nesse período. “A intenção
era fazer de Belém uma cidade moderna e civilizada, a exemplo de grandes
cidades brasileiras e européias, como o Rio de Janeiro, no Brasil, e Paris, na
França”. (Paiva, Renata –2004).
De onde vinha a riqueza?
De onde vinha a riqueza?
“O
látex, que é a seiva extraída da seringueira, já era conhecido dos portugueses
desde o início da colonização. Com a seiva dessa planta, os indígenas
fabricavam uma espécie de garrafa em formato de pêra, oca e com um canudo na
ponta. Quando cheia de água, bastava apertar sua base para que o líquido
espirasse para fora da garrafa. Os Portugueses batizaram esse objeto de seringa
e o nome dado a planta acabou virando seringueira. Os botânicos a chamam de hevea brasiliensis, mas, para os
indígenas, a seringueira sempre teve um nome: cão o’
chu, que na língua tupi significa árvore que
chora”. (Paiva,
Renata –2004).
A resina chamada caucho, quando fresca, pode ser moldada na forma
desejada. É impermeável à chuva, mas o que a torna mais notável é a sua grande
elasticidade.
Borracha:
um produto valioso
A
possibilidade de aproveitamento industrial da borracha ocorreu numa época em
que o mundo todo passava por muitas mudanças. “Nesse período, surgiram várias
das facilidades do mundo moderno, como o automóvel, o telefone e a luz
elétrica. No fim do século XIX, bondes, bicicletas e os primeiros automóveis
integravam a paisagem das grandes cidades da Europa e Estados Unidos”. (Paiva, Renata – 2004).
“A
borracha tinha duas qualidades essenciais: era elástica e impermeável. Por isso
poderia se tornar uma matéria-prima muito interessante para as fábricas
européias. Mas o uso da borracha natural era limitado. Quando entrava em
contato com o frio intenso, ficava muito seca e quebradiça. Quando exposta ao
sol, ficava úmida e pegajosa demais. Para que a indústria pudesse usar a
borracha em seus produtos era necessário resolver esses problemas”. (Paiva, Renata – 2004).
“Foi
o inventor norte-americano Charles Goodyear
que, em 1839, depois de muito pesquisar, encontrou acidentalmente um modo de
melhorar a qualidade da borracha. Ele conseguiu isso por meio de um processo em
que adicionava ao látex diferentes produtos químicos. Com isso, Goodyear
conseguiu aumentar a resistência e a elasticidade da borracha, mesmo sobre
temperaturas muito altas ou baixas. Esse processo químico recebeu o nome de vulcanização”. (Paiva,
Renata – 2004).
O sistema de extração da Borracha
“Para
explorar a borracha o empresário baseia-se no sistema de aviamento. O proprietário da área
onde há seringueiras, o aviador ou seringalista, forma um sistema comercial em que
ele é o único autorizado a comprar borracha do seringueiro (o trabalhador rural que
coleta a borracha). Ele também é o único a lhe vender mercadorias (facão,
instrumentos para coletar borracha, pólvora, chumbo, sal, açúcar, mantimentos e
material para a iluminação)”. (Meirelles
Filho, João. – 2006).
“Para
começar a trabalhar, o seringueiro é
obrigado a contrair uma dívida com o seringalista
no seu barracão (armazém do
seringalista que vende mercadorias a prazo) e a pagar o próprio custeio de
viagem até a colocação. O sociólogo Lúcio Flávio Pinto lembra que “os coronéis de
barranco” se consideravam donos de determinado território, base para
seu extrativismo vegetal (da castanha, da borracha, da balata), e ponto final.
Não se media, não se demarcava e pouco se transacionava com o imóvel. A
Amazônia era um mundo sem fim, valendo por seu uso e pouco como reserva de
valor ou meio de troca”. (Meirelles
Filho, João. – 2006).
“Em
alguns casos, onde o seringueiro é um homem de menos posse, existe um
intermediário, o regatão.
Regatão é o nome do barco, e também de seu proprietário, muitas vezes de origem
judaica ou árabe, responsável pelo transporte da borracha aos grandes centros e
das mercadorias ao seringal. O seringalista, por sua vez, endivida-se com as
grandes casas comerciais dos centros urbanos,
Manaus e Belém, no Brasil, Iquitos, no Peru, e Letícias, na Colômbia, dos quais
compra os bens de primeira necessidade e para os quais vende a borracha. Nessa
cadeia, a casa comercial endivida-se com o importador,
em geral inglês, que traz as mercadorias a essas cidades e delas leva a borracha
por navio”. (Meirelles
Filho, João. – 2006).
O
elo mais fraco, naturalmente, é o seringueiro, isolado e solitário na mata, com
poucas condições de mudar o rumo de sua história. Os preços praticados no
barracão pelo seringalista são sempre aviltantes. A cada nova compra o
seringueiro afunda-se mais e mais em dívidas, passando a viver num regime de
total dependência e semi-escravidão. (Meirelles Filho, João. – 2006).
A exploração da Borracha em Portel
Através
de entrevistas realizadas com moradores antigos, conseguimos algumas
informações importantes para melhorar o entendimento do assunto e que com
certeza servirão de base para futuras pesquisas científicas e trabalhos
escolares.
Segundo
seu Humberto Pereira Cardoso aviador da época “os principais lugares de
extração da borracha localizavam-se nos rios Anapú, Pacajá, Acutipereira e seus
respectivos afluentes, no município de Portel, recebia também borracha oriunda
do rio Carnajuba e Furo Grande no município de Melgaço”. Argumentou que “outras
pessoas também compravam borracha dos seringueiros como senhor Othon Fialho,
Levindo Pureza, Joaquim Machado e um alemão conhecido como Court Hell”.
Tivemos
também a honra e felicidade de ouvir os relatos do senhor José Anastácio
Santana da Silva seringueiro da época, natural do estado do Ceará, hoje com 97
anos, que migrou para o estado do Pará no início do século XX na companhia de
seu pai. “Disse que, na época de ajudante de seu pai e posteriormente como
chefe de família, o trabalho sempre foi árduo, tudo começava antes do sol
nascer; de madrugada eu partia da minha barraca pro seringal com minha poronga (lamparina atada a um suporte para ser
colocada na cabeça que usava como combustível querosene ou óleo diesel) e
seguia pela estrada cortando, isto é, riscado as seringueiras e coletando o
leite para depois levar para o tapiri para
defumar e transformar em borracha; no outro dia tudo se repetia nas imensas
estradas solitárias, eu, minha poronga, meu terçado e deus”.
Outro
seringueiro conhecido como Januário da Silva dos Santos nos relatou que é
natural do Ceará e também migrou para região para trabalhar na extração do
látex e atualmente mora na zona rural de Portel, no rio Irapurú
A
borracha era encontrada também nas regiões dos furos do Marajó, obtida de
diferentes espécies de árvores, sendo mais importante e encontradiça a, a
seringueira.
A
seringueira, cujo nome de provém das seringas de borracha fabricadas pelos
indígenas já antes mesmo da entrada dos brancos nas terras amazônicas. Ela vive
em estado nativo nas altas bacias dos rios Juruá, Purus e Madeira, e também na
região dos furos, a ocidente do grande arquipélago marajoara. É vegetal de
tronco robusto e folhagem escassa, próprio das regiões úmidas, onde pode alcançar
mais de 20 metros de altura.
Paralelo
a extração do látex da seringueira no município de Portel, ocorreu também à
extração do látex da maçaranduba. As principais áreas de extração da
maçaranduba estavam situadas em áreas de terra firme nos rios Anapú, Pacajá,
Camarapi, Acutipereira e seus afluentes.
Hoje
temos uma prova concreta da prática da extração da maçaranduba em Portel, que é
uma peça encontrada pelo professor Joélcio Pantoja da Costa, no dia 15 de
novembro de 2008, no Igarapé Cajú, afluente do rio Camarapi – comunidade
Santana – também conhecido como “Zeca baixinho” e encontra-se em exposição no
Centro de Ensino e Pesquisa de Portel, Museu Antonio Gonzaga da Rocha e parte
deste artigo já está postado no blog do museu www.museumunicipaldeportel-pa.blogspot.com
Seu
Januário finalizou seu relato afirmando que para se fabricar uma peça de
maçaranduba de 105 Kg, eram necessárias 05 latas de leite. Para cada lata de 21
Lt era necessário acrescentar 01 Lt de amoníaco para sua conservação. Dessa
forma, descobrimos que o látex da maçaranduba, também era vendido na forma
líquida em tambores de 200 Lt, misturados ao amoníaco e tinha um preço melhor
que a borracha, porém a procura era pouca e trabalho era muito desgastante e
não compensava.
Assim,
podemos concluir, afirmando que nossos antecedentes, portelenses, marajoaras,
participaram deste período importante da história da humanidade e discutir um
pouco mais sobre o período da borracha em Portel e ter a certeza que esta
contribuição é apenas uma pequena parte desta grandiosa história.
Portel, 25 de outubro de 2010
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